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segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Texto Original de Clodoaldo Turcato - "Somos descendentes de Caim"

Está Pagina é direcionada ao Publico pelo Escritor Clodoaldo Turcato

Somos descendentes de Caim: farinha do mesmo saco.

Gênesis 4.15 " O SENHOR, porem,lhe disse: Assim qualquer que MATAR A CAIM será vingado sete vezes E pôs o SENHOR um sinal EM CAIM para que o não ferisse de morte quem quer que o encontrasse"
Agora que temos a noção clara de que não sabemos de onde viemos, nem como, nem pra onde vamos, tentaremos ao menos descobrir que Diabos estamos fazendo aqui. Somos frutos do acaso e a partir do barro. Não fomos programados. Se Deus naquele dia resolvesse fazer algo bom, teria perdido mais que seis dias e utilizado algo mais nobre.
Então temos pelo cristões que somos descendentes de Adão e Eva. Naquele lugar maravilhoso, perto de um grande rio, que poderia ser o Nilo ou Eufrates; com calor e rica natureza estavam os dois, nus e vivendo felizes. Ora, os animais eram mansos e a vida completa. Até que um dia um diabindo (sim, por que não creio que a serpente seja coisa de gente de boa índole) infiltrou a serpente. Depois que a cobra apareceu... hum. Esse negócio da cobra nunca foi bem explicado e cá pra nós eu acho que essa cobra... Bom, depois da cobra a coisa ficou pior, para Adão e Eva e para a própria cobra, que passou a se rastejar. Ops! Então a cobra andava em pé? Ok. Sigamos. Eva e todas as mulheres foram condenadas a sentir as dores do mundo. Logo, Dona Maria, seu sofrimento parte de Eva: pode xingar.
E seguindo a ótica de Jeová, vamos encontrar Adão trabalhando, longe do paraíso e amando Eva. Isso posto que eles tem dois filhos, Abel e Caim, o que todos sabemos. Abel era o filhinho querido de Deus. Caim tinha reservas. Enquanto Abel dava o seu melhor, queimando belas reses, frutas e verduras de primeira; Caim trapaceava com seus animais estropiados e restos de colheita. E nessa berlinda que vivia, Caim não suportou ser o esquecido e matou Abel, tendo que fugir para o centro do mundo, onde encontrou outros seres... Espera um pouco! Que outros? Não apareci isso na Bíblia, o famoso livro dos contos. Espera ai. Se Caim saiu pelo mundo e teve filhos e filhas, então somos descendentes de Caim. Logo vi: boa coisa não somos.
E para quem ignora a criação cristã, a ciência também não ajuda muito. Partimos de partículas que foram se agregando, primeiro em algas e depois em seres animados. Em milhões de anos depois, isso quando o calor permitiu, surgimos parecidos com chipanzés, tortos, infantis e preguiçosos, andando pra todo lado, explorando os alimentos como um animal qualquer. E depois do calor vieram as eras glaciais e muito morreram, se espalharam, ressurgindo na Europa e África com características evolutivas, ficando eretos e se organizando em sociedades.
Então o homem em sociedade criou os padrões. Basicamente o Homem-de-neandertal e o Homo Sapiens, que viveram a cerca de 300.000 anos, baseavam sua vida social pela força, relegando aos mais fortes o comando. E assim a sociedade moderna é uma cópia da sociedade primitiva. O homem de hoje defende com todas as forças seus interesses. Enquanto o homem das cavernas mantinha seu grupo cativo por ameaças e jugos severos, atualmente os meios precisam ser sofisticados. Se outrora num duelo se resolvia tudo, os poderosos de hoje teme revoltas sociais. Logo, para controlar este ímpeto, os modernos precisaram criar um esquema onde os explorados se sintam parte de um sistema promissor, que insiste em dizer que todos têm as mesmas oportunidades, basta agarrar as chances. Dopados por esta máxima, os explorados se destroem sem perceber que poucos chegarão ao céu, já que num sistema cruel como o Capital, o nirvana é para poucos. Mas  isso não importa, as ilusões são muitas e o sujeito chega até o final de seus dias acreditando que vai dar certo.
Deste principio, o capitalista, vamos seguir de ora em diante. Tentarei, com alguma dificuldade, mas com clareza, expor onde o homem se perdeu, deixou de ser humano para virar uma maquina de consumo capitalista.
A resposta o que estamos fazendo aqui é simples: servindo o capital.

A ignorância são trevas que precisamos iluminar.

Quando cheguei ao Nordeste Brasileiro em 2000 eu tinha em mente o sertão de Graciliano Ramos cercado pelos canaviais de João Cabral de Mello Neto.  Não considerei a cidade, a metrópole e sua gente exprimida pelos cantos, em becos entre prédios luxuosos da zona sul ou morros da zona norte.  Não contava com a prostituição de crianças em Boa Viagem nem com os cheira-cola do Derby. Ao entrar na minha primeira escola para dar aulas em Jaboatão dos Guararapes, quase desisti tamanha a devassagem educacional e falta de estrutura. Algumas vezes não tinha giz, merenda, e o calor da sala nos obrigava a sair para o pátio e concluir a aula.
Do Nordeste dos livros eu não senti o calor da terra e do povo, o suor das feridas nunca fechadas e as lágrimas dos choros das crianças com fome: nos livros sempre encontramos os mocinhos e as mocinhas faceiras que, não raro, tem um final feliz. No meu encontro com o Nordeste recordei de um professor boliviano chamado Juan De Marcos, que insistia na tese de que a miséria da América Latina nunca acabaria já que é extremamente lucrativa. Seguia meu Mestre que a educação formal latino americana estava em plena decadência, já que para manter o mercado de trabalho não são necessárias pessoas educadas, mas adestradas. “Os seres que podem revolucionar a educação são contratados a peso de ouro para os centros universitários norte americanos e europeus. Aqui só ficamos nós, as focas” e ria. Nunca me explicou o sentido da palavra foca, nem insisti, apenas desacreditei naquele dia com meus sonhos idealistas.
Depois de dois anos em Recife das praias mais belas do mundo, fui para a Zona Leste de São Paulo, região povoada por Nordestinos. Passei seis meses convivendo com as mesmas misérias do Recife, sobre tudo a falta de interesse em estudar e melhorar ao seu redor. Alguns barracos ficavam praticamente amarrados no pé do morro, o acesso era íngreme e o esgoto a céu aberto. Para solucionar parte do problema bastaria que os homens e mulheres, que geralmente ficavam dois dias por semana bebendo e dançando, pegassem algumas enxadas e corrigissem os terrenos. No entanto eles aguardavam as graças da Prefeitura para seus intentos, coisas que jamais aconteciam e até hoje as casas continuam na mesma situação. Cada barraco de no máximo cinqüenta metros quadrados tinha em torno de dez pessoas, metade crianças em idade escolar que mal sabiam escrever o nome e não faziam nada além de passar o dia vendo programas detestáveis na televisão. Desta feita me veio mais um dizer de um grande empresário de Lucas do Rio Verde, chamado Otaviano Pivetta, sobre a proliferação das pessoas pobres, principalmente negros e nordestinos: “São como ratos, a gente mata dez, nascem vinte”. Lamentável.
A menos de um mês vim pra Diadema, uma das regiões mais industrializadas do mundo e com mão-de-obra primária  basicamente Nordestina. Encontro novamente os mesmos problemas: baixo índice escolar, despolitizados, descomprometimento com qualquer atividade do Estado, renda abaixo do nível nacional, descontrole de natalidade, rompimentos familiares constantes, falta de compromisso com atividades mínimas, individualismo e pouca estima. Ao ver as estatísticas do IBGE, o Norte e Nordeste tiveram melhoras em seus números, porém o índice escolar está abaixo do Zimbábue. O Sul e o Sudeste mais preparados absorvem melhor o aumento da riqueza. O Centro Oeste dominado pelos sulistas chega a números interessantes na produção agrícola e índice humano, enquanto o Nordeste não consegue engatar melhora. As cidades povoadas por Europeus e seus descendentes promovem as melhorias em suas comunidades e reportam esquemas de politização que faz o representante ser obrigado a mostrar seu trabalho, dando menos distância entre o discurso e  os feitos. Nenhum eleitor do Sul é melhor que qualquer outra região, no entanto é mais cobrador, revolta-se e tem a política na cultura, o que produz melhores administradores. Para um Nordestino e suas misturas, a política é abominável. Eles não conseguem compreender a máquina capitalista a qual está inserido, onde importa em ter a política como instrumento manipulador, logo prefere execrá-la. O mesmo faz-se com a educação e seus educadores: acham que a leitura é algo desnecessário, mistificam o estudioso como um louco ou alguém fora da realidade. Ao expor meus livros e trabalhos para alguns amigos aqui e no Recife, eles olhavam com atenção, visualizavam meus escritos numa olhada piedosa e devolviam quase pedindo desculpas por tamanha ousadia de por os olhos naquele amontoado de bobagens.
Então quando escrevo que o Nordestino é um ser manipulável pela falta de cultura, politização e vontade própria de vencer, algum espertinho munido de uma cartilha idiota dos Direitos Humanos  me chama de preconceituoso. Meu caro, eu tenho números e vivência. Estive em barracos e mansões de Recife e São Paulo e entendi como é fácil controlar um povo mal educado como o Nordestino. Se nas escolas falta giz e merenda, que dirá dos professores, livros, psicólogos e demais entes que integram a comunidade escolar. Um pai Nordestino sabe que estudar é preciso, mas não para criar um filho diferenciado, pensante e revolucionário, mas para que ele arrume um bom emprego, de carteira assinada, e se aposente. Um cidadão de bem é aquele que mantém sua família, não vai pro crime e se aposenta. Nada além disso. Um sonho que não incluiu ascensão social, ter  algum capital ou estudar numa boa universidade. O objetivo do Nordestino é nascer, crescer e morrer – pouco. 
Então eu acho muito mais útil aos senhores representantes dos Direitos Humanos exporem com clareza a ferida chamada miséria e a parte do Brasil onde ela mais rende, do que me perseguir com a uma caça as bruxas por eu escrever estas verdades duras. Não quero dizer que somos melhores por sermos sulistas, mais inteligentes, preparados ou acima de qualquer negro nordestino. Apenas exponho com extremismo a realidade que as ruas mostram e são traduzidos nos censos. Eu não minto! Quem mente são as autoridades que elevam a estimam destes coitados para dar a eles um ponta-pé assim que a eleição acaba.  O Nordestino está inferiorizado sim! Não adianta passar a mão.
E o que fez esta disparidade acontecer? Bom, temos aqui toda uma questão de colonização regional que estamos cansados de escrever. No entanto está diferença poderia ter sido diminuída em quinhentos anos de história se houvesse vontade dominante. Nunca existiu um só político com capacidade pra investir pesado em educação nos nove Estados Nordestinos. Os grandes vultos literários e educacionais, como Paulo Freire, foram levados para outros cantos do mundo, afinal de contas poderiam causar algum mal estar com suas propostas de investimento na educação. Os coronéis os levaram para longe, onde pudesse dominá-los tranquilamente. Restaram os contadores de estórias, e esses não tem poder mais que suas penas.
Outra inclinação para os miseráveis nordestinos é inflarem as igrejas evangélicas. Ao contrário de Martinho Lutero, os evangélicos brasileiros manipulam as misérias a tal ponto que um fiel sente-se na “benção” quando consegue pagar  o dízimo e ser agraciado com mais dias comendo cuscus com ovo e vestindo promoções de lojas baratas. Lutero deixou o catolicismo para buscar a riqueza, já os evangélicos brasileiros sugam o pouco dos pobres para suas igrejas fantásticas, aviões luxuosos e propriedades cercadas de gado por todos os lados. Então temos que políticos e religiosos, em sua maioria, são manipuladores. Não! São os números. Basta compará-los. As igrejas evangélicas cresceram e aumentaram sua influência nas populações miseráveis nordestinas, em todos os Estados. E os crentes mudam do catolicismo ou religiões afros por pura conveniência: é mais simples atingir o céu aderindo a fé protestante, onde basta pedir perdão e pagar o dízimo.  Nesta preguiça impregnada, que tanto  exaltou Mario de Andrade, fez do brasileiro de cor uma síndrome do jeitinho, deste mal de nunca ousar mais que o comer de todos os dias e o sexo de todas as noites.
Por causa de falsos preceitos e um moralismo exacerbado, a África foi escravizada pelos povos civilizados e transformada em um bolsão de pobreza permanente. Em todos os movimentos de revitalização dos povos são abortados, levando poucos ao poder absoluto e muitos a miséria total. Olhar a África setentrional é o mesmo que ver o sertão nordestino de Graciliano com suas cabeças de bois espalhadas pelo solo e cães misturados a gente na busca de um preá que seja. E lá nos altos escalões, os Doutores choram ao ver criançinhas esqueléticas na savana africana, colocam leis para suprir a fome daqueles benditos. Enquanto isso nossas crianças passam fome de saber e a comida anda escassa.
Para concluir, o povo Nordestino (que está em todas as regiões do Brasil e partes do Mundo) é usado e será por muito tempo, usado como massa de manobra. Isso mudará quando as escolas melhorarem, os livros forem devorados e entendidos.
Autor Clodoaldo Turcato