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quarta-feira, 8 de maio de 2013

"Rebeca" Por Juliana Izabel Polydoro

Capítulo 30
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"Rebeca"  Por Juliana Izabel Polydoro

  Fui para São Paulo de ônibus, dormi quase a viagem toda. Desci do ônibus e vi um carequinha com a mão para cima e uma morenona do lado dele, só podia ser o papai e a Bia. - Ai que chique, vocês vieram me buscar – eu disse abraçando o papai - Claro que a gente veio te buscar! Estava morrendo de saudades de você – A Bia disse Entramos no carro e fiquei conversando coma Bia sobre os vestibulares que ela estava prestando, ela já tinha passado em uma universidade particular, mas era muito cara. - Eu disse para ela ir que eu dou um jeito – surpreendentemente papai abriu a boca para falar alguma coisa, ele era muito calado e ainda não tinha dito uma palavra desde que tínhamos entrado no carro. - Pai, eu já conversei sobre isso com o senhor, eu não quero que o senhor pague, é muito caro e o senhor já trabalha demais para pagar as nossas contas – disse a Bia, que pensa sempre primeiro nos outros e depois nela – É verdade Re, ele paga a faculdade da Rafa, paga o meu cursinho, além de todas as contas da casa e roupas e tudo mais, não tem a menor condição de pagar três mil e quinhentos reais em uma faculdade particular e outra eu quero estudar em uma pública, que vai ser melhor para a minha carreira. – Bia disse com a voz brava, papai não respondeu, só balançou a cabeça negativamente. - E o resultado da faculdade do Rio, já saiu? – eu perguntei - Não ainda não, só saíram dois resultados aqui de São Paulo e eu não passei, mas até que eu fui bem. O Rio ainda é a minha esperança – Bia falou e papai balançou a cabeça de novo, porque é claro que ele não queria que a Bia fosse para o Rio, até hoje ele não se conformava que eu tinha ido embora. Chegamos em casa mamãe estava com a Raquel e as crianças, o Fabricinho Júnior correu para me abraçar, um fofo, já estava com quatro anos e a Mariana que tinha dois anos estava no colo da Raquel. Agarrei ele e enchi de beijos, ele começou a me empurrar tentando se livrar dos meus beijos de Felícia (aquela garotinha que abraça até esmagar os animaizinhos), depois peguei a Mari no colo, dei um beijo na mamãe e na Raquel. - Oi Raquel, você está em casa, não está mais trabalhando? - eu perguntei - Estou de férias, sou professora lembra? – Ela respondeu toda grossa – E o seu novo trabalho, como vai? - Vai bem, obrigada, minha chefe é muito exigente, mas é bem bacana, e meus colegas de trabalho são muito legais, com exceção de uma delas que é uma puxa saco! – eu respondi meio sem paciência, eu gosto da Raquel, mas não consigo conversar com ela por mais de dois minutos, somos completamente diferentes. - E quanto você ganha? – a idiota da Raquel tinha que tocar no assunto de dinheiro - Não te interessa – eu respondi - Ih, então deve estar ganhando uma miséria ou tá ficando rica e não quer contar para a gente.- ela respondeu já sendo inconveniente, como de costume. - Vai começar a encher meu saco, né Raquel, dá um tempo! – Eu respondi - Se você está ganhando pouco filha, precisa pedir uma aumento, você merece ganhar bem, estudou tanto. – minha mãe respondeu, apoiando a Raquel quando o assunto era se meter na minha vida sem nem saber direito o que se passa nela. - Mãe, mas não é assim que as coisas funcionam, primeiro a gente trabalha e depois é reconhecida. – Falei já desistindo de tentar ter uma conversa amigável - Eu vou para o quarto descansar um pouco. Quando estava subindo as escadas ouvi a Raquel dizendo: - Nervosinha ela né? Dei meia volta e pensei em descer pra já arrumar um escândalo, mas achei melhor não, porque no final eu que sempre fico com dor de cabeça. - Deixa ela em paz – disse a Bia que tinha ficado assistindo toda a discussão enquanto comia uma banana, respondeu. Fui para o meu quarto e fechei a porta. Eu ainda tinha um quarto na casa da mamãe. Deitei e fiquei olhando para o teto. Me senti feliz por não viver mais ali, minha família era como um veneno para a minha auto estima, sempre me colocam para baixo, não sei se é sem querer ou de propósito, mas elas tem dificuldade de ver o que eu tenho de bom e perto delas me sinto aquela menininha de 15 anos insegura, que não sabe o que faz. A Bia é a única exceção, ela me vê como sou e sempre me incentiva e eu tento fazer a mesma coisa com ela. Ao mesmo tempo são as críticas que me deram força para sair de casa e buscar o que eu queria para a minha vida. A Bia entrou no quarto: - Você ficou triste Rê? - O que você acha? Estava com a “guarda” baixa, ainda não tinha me preparado para o bombardeio. Por isso resolvi vir para o quarto para me preparar para os próximos dois dias. - Rê, não liga, elas também fazem isso comigo o tempo todo, mas eu não me afeto. Ela deitou do meu lado e então me disse: - Vamos começar a sessão. - Que sessão?– Eu perguntei sem entender. - Ah, já esqueceu, a sessão “xingamentos”! Lembrei então a sessão “xingamentos”, eu e a Bia tínhamos inventado para quando estivéssemos de saco cheio, de qualquer coisa na vida, mas da mamãe principalmente. A sessão consistia em falar muitos palavrões, até acabar o ar dos pulmões e repetir diversas vezes, isso pulando em cima da cama. Tínhamos que nos preparar, trancamos a porta, subimos na cama, e começamos a pular. Eu começo, a Bia disse: - Vai se foder, vai tomar no cú, vai para a casa do caralho, vai chupar um canavial de rôla (essa eu robei dos Melhores do Mundo)… Nessa hora eu já estava fazendo xixi nas calças de tanto rir, mas o ar dela ainda não tinha acabado. - Vai pro inferno, para a puta que o pariu …. Quando ela terminou, eu comecei e ainda fizemos mais umas três rodadas. Terminamos e eu estava me sentindo muito melhor. Resolvemos sair e andar um pouco de bicicleta. Passamos pela cozinha elas estavam lá, fazendo todas as comidas possíveis e imagináveis para a noite de Natal, passamos rapidinho para elas não verem, pegamos a bicicleta e andamos por todos os lugares que andávamos quando éramos crianças, foi muito bom, paramos, tomamos sorvete e voltamos quando já estava escurecendo. Entramos já preparadas para a chantagem que estava por vir, não deu outra. - Onde estavam as mocinhas? Só a Raquelzinha para me ajudar – a mãe falou e virou de costas e começamos a imitar ela, ela virou e viu, ficou puta da vida. - Saiam as duas daqui – gritou e nós saímos rindo. Tomei banho e fui deitar. Fiquei pensando sobre aquele dia, como era difícil ficar ali. Só a Bia aguentava mesmo. Fiquei me perguntando por que daquela necessidade de aprovação, e como isso me sufocava quando estava em casa. Porque quanto mais eu tentava menos eu conseguia e o tiro acabava saindo pela culatra, pois parecia que só eu me sentia mal. Era essa sensação de me sentir rejeitada que sempre queria evitar e que acabava voltando. Eu tinha que enfiar na minha cabeça dura que não adiantava fazer coisas para agradar as outras pessoas, sempre teria alguém que não ia gostar de mim, ou de nada que eu fizesse, é impossível ser uma unanimidade. Então era melhor eu ser eu mesma, e me sentir feliz com isso do que agradar ou outros, principalmente na minha família, onde eu me sentia pequena, e incapaz. Quando estou perto deles, é como se eu estivesse sendo sufocada, ficava sem ar, de verdade, geralmente tinha crises alérgicas constante, o que melhorou muito depois que eu fui morar no Rio. Parecia que não conseguiria ser bem sucedida em nada se continuasse vivendo ali, sempre sendo tratada como a criança, indefesa que não faz nada direito, a coitadinha. E não era isso que eu queria ser, queria ser bem sucedida e ter uma vida plena e feliz. Depois de alguns anos, vejo que eu tenho que conviver e superar esse sentimento, perto ou longe, me sentindo confiante e bem comigo mesma, não importa o que aconteça fora, mas isso é um exercício, e eu preciso fazer constantemente, lógico que com a ajuda da Bia e das sessões de xingamentos.
Autora:  Juliana Izabel Polydoro



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